Quercus critica prolongamento da licença da Central Nuclear de Almaraz até 2030

O prolongamento da licença de operação da Central Nuclear de Almaraz, em Espanha, até 2030 está a ser recebido com “muita apreensão” por ambientalistas portugueses, que consideram a decisão uma cedência às empresas que exploram a central e um retrocesso face ao calendário de encerramento anunciado para 2026‑2027.

A renovação da licença foi formalizada pelo Ministério da Transição Ecológica e do Desafio Demográfico de Espanha e publicada esta sexta‑feira no Boletim Oficial do Estado.

Em funcionamento desde 1981 e com operação comercial iniciada em 1983, a central está implantada numa zona de risco sísmico, junto ao rio Tejo, que atravessa os distritos de Castelo Branco e Portalegre após entrar em território nacional por Vila Velha de Ródão.

A crítica ao prolongamento da licença de operação da central nuclear é sublinhada por José Janela, dirigente da Quercus Portalegre, que alerta para riscos ambientais, de segurança e para o impacto das alterações climáticas no funcionamento da infraestrutura espanhola situada a pouco mais de 100 quilómetros da fronteira portuguesa.

Para José Janela, o adiamento do fecho não tem justificação técnica nem ambiental. O dirigente recorda que a Quercus saudou o anúncio do encerramento faseado dos reatores, mas considera que o prolongamento agora decidido rompe esse compromisso e exige a definição de um plano de desativação que assegure uma transição justa para os trabalhadores.

O ambientalista sublinha também os riscos associados à disponibilidade de água no Tejo, lembrando episódios recentes noutros países europeus. Refere que este verão houve paragens de reatores na Hungria e problemas na Roménia devido à falta de água no Danúbio, e alerta que a tendência para verões mais quentes, ondas de calor prolongadas e secas mais severas pode comprometer o funcionamento de Almaraz. A redução do caudal, afirma, significa menos água para arrefecimento e maior aquecimento da água rejeitada para o rio, com impacto num curso de água internacional já pressionado.

A Quercus aponta ainda preocupações de segurança, evocando o contexto da guerra na Ucrânia, onde centrais nucleares se tornaram alvos militares, e insiste que o risco de acidente ou ataque não pode ser ignorado. A ausência de soluções definitivas para resíduos radioativos é outro ponto crítico: alguns materiais permanecem perigosos durante milhares de anos, deixando um legado que, nas palavras de Janela, “não é o melhor que queremos deixar às gerações futuras”.

Com a licença prolongada até 8 de junho de 2030, a central nuclear mais próxima de Portugal continuará a operar por mais quatro anos, mantendo viva a preocupação das organizações ambientais portuguesas que há décadas acompanham o seu impacto e evolução.

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